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Futebol Brasileiro

Biografia de um time: Paraguaçuense

O interior de São Paulo está repleto de clubes que construíram histórias extraordinárias longe dos grandes holofotes. Alguns chegaram perto da elite, outros desapareceram temporariamente do futebol profissional, e muitos deixaram uma…

Blog do Capita

8 min de leitura

O interior de São Paulo está repleto de clubes que construíram histórias extraordinárias longe dos grandes holofotes. Alguns chegaram perto da elite, outros desapareceram temporariamente do futebol profissional, e muitos deixaram uma ligação com suas cidades que permanece mesmo décadas depois.

O Esporte Clube Paraguaçuense, de Paraguaçu Paulista, é um exemplo perfeito. Conhecido como Azulão, o clube viveu seu grande momento em 1993, quando foi campeão da divisão de acesso do Campeonato Paulista e conquistou dentro de campo o direito de subir. Uma mudança na estrutura das divisões, porém, impediu que aquela geração enfrentasse os grandes clubes paulistas no ano seguinte.

A história ficou ainda mais curiosa porque o troféu daquela conquista demorou 27 anos para finalmente chegar às mãos do Paraguaçuense.

Como nasceu o Paraguaçuense?

O clube foi fundado em 28 de novembro de 1965, em Paraguaçu Paulista, município localizado no interior do estado de São Paulo.

Curiosamente, ele não nasceu utilizando o nome pelo qual se tornaria conhecido.

Funcionários da prefeitura da cidade participaram de sua fundação e a equipe recebeu inicialmente o nome de Esporte Clube Municipal.

O futebol profissional começou rapidamente.

Em 1966, apenas alguns meses depois da fundação, o Municipal já participou da Quarta Divisão do Campeonato Paulista. A equipe repetiu a participação em 1967 e, entre 1968 e 1970, passou a disputar a Terceira Divisão estadual.

Começava assim uma longa caminhada pelas divisões do futebol paulista.

De Esporte Clube Municipal a Paraguaçuense

Depois das primeiras temporadas profissionais, o clube atravessou períodos de atividade e ausência das competições.

Retornou à Terceira Divisão em 1975 e 1976 e continuou circulando pelas categorias inferiores do futebol paulista nos anos seguintes.

Uma transformação importante aconteceu em 1981.

O antigo Esporte Clube Municipal passou a aparecer no Campeonato Paulista com a denominação Esporte Clube Paraguaçuense. Com maior apoio local, a equipe iniciou uma nova fase de sua história.

Foi também nesse período que a identidade do clube se consolidou.

Por que o Paraguaçuense é chamado de Azulão?

As cores tradicionais do Paraguaçuense são azul e branco.

Como a equipe utilizou frequentemente uniformes predominantemente azuis, surgiu o apelido Azulão. Posteriormente, o pássaro azulão também passou a representar o clube como mascote.

É uma identidade muito característica do futebol do interior: clube, uniforme, apelido e cidade acabaram se tornando partes de uma mesma história.

Os uniformes dessas equipes também ajudam a preservar períodos do futebol que muitas vezes sobrevivem apenas nas fotografias e na memória dos torcedores. Para quem gosta dessa cultura, vale conhecer nossa coleção de camisas retrô de futebol.

A escalada do Paraguaçuense

O período que transformaria definitivamente a história do Azulão começou no final dos anos 1980.

Em 1989, o Paraguaçuense conseguiu um acesso na estrutura estadual. De 1990 a 1992, continuou avançando e, com o terceiro lugar em 1992, alcançou a Divisão Intermediária de 1993, que naquele momento correspondia ao segundo nível estadual.

Era uma oportunidade enorme para um clube de uma cidade do interior.

E o Paraguaçuense aproveitou.

O histórico time de 1993

A temporada de 1993 permanece como a mais importante da história do clube.

Naquela edição da Divisão Intermediária, o Paraguaçuense disputou 38 partidas, conquistando 17 vitórias e 12 empates, além de sofrer nove derrotas.

O regulamento levou a decisão para um quadrangular final envolvendo Paraguaçuense, Comercial de Ribeirão Preto, Francana e União Barbarense, então denominado União Agrícola Barbarense.

O técnico daquela equipe era Luís Carlos Martins, treinador que posteriormente construiria uma longa trajetória principalmente no futebol paulista.

Entre os jogadores daquela formação estavam nomes como Sílvio, Carlos Alberto, Carlão, Jânio, Haroldo, Paulo César, Miel, Delém, Carlinhos Preta, Cássio, Toti e Fabinho.

A partida que colocou o Paraguaçuense no topo

Chegamos então a 12 de dezembro de 1993.

O Estádio Municipal Carlos Affini recebeu a partida entre Paraguaçuense e União Barbarense.

Quase cinco mil torcedores acompanharam o confronto: foram registrados 4.944 pagantes.

E o Azulão não deixou dúvidas.

Paraguaçuense 4 x 1 União Barbarense.

Cássio marcou três vezes e Delém completou a goleada. O resultado confirmou o Paraguaçuense como campeão da Divisão Intermediária.

A escalação daquela partida histórica foi:

Sílvio; Carlos Alberto, Carlão, Jânio e Haroldo; Paulo César, Miel e Delém; Carlinhos Preta, Cássio e Toti.

Fabinho também entrou durante a partida, e Luís Carlos Martins comandava a equipe.

Era o maior momento da história do Azulão.

Teoricamente, também seria a porta de entrada para a elite paulista.

Mas não foi isso que aconteceu.

O acesso que nunca aconteceu

É aqui que a história do Paraguaçuense se torna particularmente incomum.

Pelo formato vigente em 1993, a campanha havia colocado o clube em posição de disputar a primeira divisão paulista na temporada seguinte. Uma publicação da época sobre o campeonato de 1994 inclusive registrava que campeão e vice da Divisão Intermediária teriam acesso.

Entretanto, a Federação Paulista reorganizou profundamente suas competições para 1994, estabelecendo a estrutura com Séries A1, A2 e A3.

O Paraguaçuense acabou enquadrado na nova Série A2.

Ou seja: conquistou o acesso dentro da estrutura anterior, mas a divisão para a qual iria foi reorganizada antes que pudesse efetivamente disputar o campeonato contra os principais clubes do estado.

O Comercial de Ribeirão Preto também foi afetado pela reformulação.

Para o Azulão, porém, a situação ganhou mais um capítulo estranho.

O troféu que demorou 27 anos

O Paraguaçuense terminou 1993 campeão, mas não recebeu imediatamente o troféu da competição.

Como a decisão ocorreu através de um quadrangular e havia toda a confusão envolvendo a reorganização das divisões, a taça acabou não sendo entregue ao clube naquele momento.

Os anos passaram.

Em 2014, dirigentes do Paraguaçuense fizeram uma reivindicação formal para que a conquista fosse reconhecida com a entrega da taça.

Somente em 2020, depois de pesquisas e tratativas com a Federação Paulista de Futebol, o pedido finalmente foi atendido.

O então presidente do clube, Petrus Ricardo Rodrigues Silva, recebeu das mãos do presidente da FPF o troféu referente à conquista de 1993.

Foram 27 anos de espera.

Uma situação raríssima no futebol brasileiro.

O Estádio Carlos Affini

A casa tradicional do Paraguaçuense é o Estádio Municipal Carlos Affini, em Paraguaçu Paulista.

Foi justamente ali que aconteceu a goleada por 4 a 1 que confirmou a conquista de 1993.

Naquela tarde histórica, os 4.944 pagantes praticamente transformaram o estádio no centro da cidade.

O Carlos Affini tornou-se, portanto, inseparável da memória do maior momento esportivo do Azulão.

O Paraguaçuense depois de 1993

Embora o tão esperado encontro com os gigantes da elite paulista não tenha acontecido, o clube continuou disputando as competições estaduais.

Documentação apresentada pelo próprio clube registra participações na segunda divisão estadual — dentro das diferentes nomenclaturas utilizadas ao longo dos anos — em 1993, 1994 e de 1996 a 2002.

Também disputou outras categorias do Campeonato Paulista conforme foi subindo e descendo na pirâmide estadual.

A realidade financeira dos pequenos clubes do interior, entretanto, tornou a continuidade cada vez mais complicada.

A crise e o último campeonato profissional

A última competição profissional disputada pelo Paraguaçuense ocorreu em 2007.

Naquela temporada, o clube participou da então Segunda Divisão paulista, correspondente ao quarto nível estadual.

Foi uma campanha extremamente difícil.

O Paraguaçuense terminou na última posição de seu grupo, perdeu seis pontos devido à escalação irregular de jogadores e ainda protagonizou uma situação incomum: uma partida em seu próprio estádio terminou em W.O. porque não havia médico disponível no local.

Depois daquela temporada, o clube se licenciou das competições profissionais em 2008.

Começava um longo período longe dos campeonatos oficiais.

As tentativas de retorno

Mesmo afastado, o Paraguaçuense nunca desapareceu completamente.

O reconhecimento do título de 1993 em 2020 reacendeu discussões sobre uma possível retomada do futebol profissional.

Em 2021, documentação apresentada às autoridades municipais identificava o clube como filiado à Federação Paulista de Futebol e à CBF.

Em dezembro daquele ano, foi emitido um certificado de filiação à FPF, alimentando a possibilidade de retorno às competições em 2022.

A volta, entretanto, não se concretizou naquele momento.

Até as fontes mais recentes consultadas para este artigo, o Paraguaçuense continua sendo tratado como clube licenciado das competições profissionais.

O título de 1993 é a maior conquista do Paraguaçuense?

Sim. A principal conquista registrada oficialmente na história do clube é o Campeonato Paulista da Divisão Intermediária de 1993, hoje associado historicamente ao nível da Série A2.

Mas o significado daquele campeonato vai muito além de simplesmente adicionar uma taça à sala de troféus.

Durante algumas horas de dezembro de 1993, uma equipe de Paraguaçu Paulista havia conquistado em campo o direito de chegar ao nível mais alto do futebol estadual.

A reorganização do campeonato impediu que isso acontecesse.

É justamente esse detalhe que transformou a campanha em uma das histórias mais curiosas do futebol paulista.

Paraguaçuense e a memória dos clubes do interior

Histórias como a do Azulão ajudam a explicar por que o futebol brasileiro vai muito além das equipes que disputam as Séries A e B do Campeonato Brasileiro.

Durante décadas, os campeonatos estaduais permitiram que centenas de cidades construíssem uma identidade ao redor de seus clubes.

O Paraguaçuense representa exatamente esse futebol.

Nasceu como Esporte Clube Municipal, começou profissionalmente em 1966, adotou definitivamente a identidade de Paraguaçuense, percorreu diferentes divisões, viveu uma ascensão impressionante no começo dos anos 1990 e chegou ao ponto máximo com a conquista de 1993.

Depois vieram dificuldades financeiras, rebaixamentos, licenciamento e tentativas de reconstrução.

Mas o clube continua existindo na memória de Paraguaçu Paulista.

O eterno Azulão de 1993

Para uma geração de torcedores, provavelmente nenhuma lembrança supera aquela tarde de 12 de dezembro de 1993.

Carlos Affini cheio.

Cássio marcando três gols.

Delém completando a goleada.

Paraguaçuense 4 x 1 União Barbarense.

E o Azulão campeão.

O acesso que deveria acompanhar aquela conquista acabou desaparecendo em uma mudança administrativa. O troféu demorou quase três décadas para chegar.

Mas ninguém conseguiu retirar daquela equipe aquilo que aconteceu dentro de campo.

O Paraguaçuense foi campeão paulista da Divisão Intermediária de 1993.

E é justamente por histórias assim que vale preservar a memória dos clubes tradicionais do interior. No Blog da Loja do Capita, você encontra outras histórias sobre clubes, jogadores, temporadas e momentos que ajudaram a construir o futebol brasileiro.

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