Por que o Barcelona quase quebrou nos últimos anos?
Durante décadas, o Barcelona foi visto como uma das maiores potências financeiras do futebol mundial. O clube tinha receitas gigantescas, estrelas como Lionel Messi, Neymar e Luis Suárez, contratos comerciais globais e…

Durante décadas, o Barcelona foi visto como uma das maiores potências financeiras do futebol mundial. O clube tinha receitas gigantescas, estrelas como Lionel Messi, Neymar e Luis Suárez, contratos comerciais globais e um dos estádios mais famosos do planeta.
Por isso, quando a crise financeira explodiu entre 2020 e 2021, muita gente se perguntou: como um clube do tamanho do Barcelona conseguiu chegar tão perto de uma situação financeira crítica?
A resposta não está em um único erro.
O problema foi a combinação de salários muito altos, contratações caras, crescimento das dívidas, queda abrupta das receitas durante a pandemia e compromissos financeiros acumulados durante anos.
Em 2020/21, a dimensão do problema apareceu de maneira clara nas contas: o Barcelona terminou o exercício com €631 milhões de receitas, €1,136 bilhão em despesas e prejuízo líquido de €481 milhões. A dívida líquida, segundo o critério utilizado pela LaLiga, estava em €680 milhões.
Mas para entender como o clube chegou até ali é preciso voltar alguns anos.
O Barcelona era realmente um clube quase quebrado?
A palavra "quebrado" precisa ser usada com cuidado.
O Barcelona não entrou em falência e continuava possuindo uma marca extremamente valiosa, milhões de torcedores, ativos, contratos comerciais e enorme capacidade futura de geração de receita.
O problema era principalmente de liquidez, endividamento, despesas elevadas e capacidade de cumprir as regras financeiras do futebol espanhol.
Em junho de 2021, o clube declarou patrimônio líquido negativo de €451 milhões. Havia €63 milhões disponíveis em caixa e equivalentes e €533 milhões em dívida bancária.
Era uma situação extraordinariamente delicada para uma instituição acostumada a movimentar algumas das maiores receitas do futebol.
1. A folha salarial ficou gigantesca
Um dos principais elementos da crise foi o crescimento da massa salarial.
O Barcelona reuniu durante anos alguns dos jogadores mais valorizados do planeta.
Lionel Messi, Luis Suárez, Neymar, Andrés Iniesta, Sergio Busquets, Gerard Piqué e outras estrelas passaram pelo clube durante aquele ciclo.
Ter um elenco dessa dimensão custa muito.
O problema se torna maior quando novos contratos são assinados para manter estrelas, substituir jogadores importantes ou competir com os salários oferecidos por outros gigantes europeus.
O Barcelona chegou ao final daquela era com uma estrutura de custos que dependia da manutenção de receitas extraordinariamente altas.
Enquanto o dinheiro continuava entrando, o modelo conseguia funcionar.
Quando as receitas despencaram, a fragilidade apareceu.
2. Neymar saiu — e o Barcelona gastou uma fortuna tentando substituí-lo
A transferência de Neymar para o Paris Saint-Germain em 2017 mudou profundamente o mercado do Barcelona.
O PSG pagou a cláusula de rescisão de €222 milhões, dando ao Barça enorme capacidade imediata de investimento.
Mas o clube precisava substituir um jogador que formava com Messi e Luis Suárez um dos ataques mais poderosos da história.
Vieram operações extremamente caras.
Ousmane Dembélé foi contratado do Borussia Dortmund.
Philippe Coutinho chegou do Liverpool.
Posteriormente, o clube também realizou uma enorme operação por Antoine Griezmann.
O problema não era simplesmente gastar dinheiro.
Grandes clubes naturalmente fazem grandes contratações.
A questão era que essas operações vieram acompanhadas de salários, bônus, amortizações e compromissos futuros que aumentavam os custos fixos do Barcelona.
Além disso, esportivamente, nenhuma dessas contratações conseguiu simplesmente reproduzir aquilo que Neymar oferecia ao lado de Messi e Suárez.
3. O Barcelona gastava como se as receitas fossem crescer para sempre
Esse talvez seja o ponto central.
O Barça possuía uma enorme capacidade de gerar dinheiro.
Ingressos, turismo, museu, direitos televisivos, patrocínios, competições europeias e produtos oficiais transformavam o clube em uma máquina comercial global.
E a popularidade internacional era alimentada pelas próprias estrelas.
Durante essa fase, uma camisa de time de gigantes como o Barcelona passou a representar não apenas o clube de uma determinada cidade, mas uma marca consumida por torcedores espalhados pelo mundo.
O problema financeiro aparece quando despesas permanentes crescem apoiadas na expectativa de que receitas extraordinárias continuarão aumentando.
Isso deixa pouca margem para enfrentar uma crise inesperada.
E foi exatamente o que aconteceu.
4. Então chegou a pandemia
A Covid-19 foi o choque que acelerou dramaticamente a crise.
Partidas passaram a acontecer sem público.
O Camp Nou deixou de receber normalmente dezenas de milhares de torcedores e turistas.
As atividades comerciais relacionadas ao estádio e ao turismo foram atingidas.
E um clube como o Barcelona dependia bastante dessas receitas.
Nas contas de 2020/21, a receita operacional caiu para €631 milhões, 26% abaixo dos €855 milhões registrados no exercício anterior. Ao mesmo tempo, as despesas chegaram ao recorde de €1,136 bilhão.
Ou seja:
a receita despencou, mas grande parte das obrigações continuou existindo.
Essa combinação foi devastadora.
5. O prejuízo de €481 milhões revelou a dimensão da crise
A temporada 2020/21 terminou com um número impressionante:
€481 milhões de prejuízo após impostos.
O próprio Barcelona reconheceu oficialmente esse resultado.
Parte do impacto contábil também veio de provisões fiscais, jurídicas, trabalhistas e de inadimplência, além da revisão do valor contábil de determinados jogadores. Portanto, os €481 milhões não podem ser interpretados simplesmente como dinheiro que "sumiu do caixa" naquela temporada.
Mesmo com essa ressalva, o resultado mostrava claramente que a estrutura financeira precisava ser reorganizada.
6. A dívida virou outro grande problema
Em 30 de junho de 2021, o Barcelona declarou €680 milhões de dívida líquida segundo o critério da LaLiga.
Desconsiderando €122 milhões relacionados ao Espai Barça e outros investimentos extraordinários, a dívida ajustada era de €558 milhões.
O problema não era apenas o tamanho da dívida.
Também importavam:
- os vencimentos;
- juros;
- pagamentos relacionados a transferências;
- salários;
- necessidade de financiar a operação cotidiana;
- limites financeiros estabelecidos pela LaLiga.
O Barcelona possuía capacidade futura para gerar receitas enormes, mas precisava reorganizar quando e como suas obrigações seriam pagas.
7. Por que Messi teve que sair?
Talvez nenhum episódio represente melhor a crise.
No verão europeu de 2021, Lionel Messi deixou o Barcelona.
Messi queria continuar e o clube também pretendia renovar seu contrato.
Mas o problema ultrapassava simplesmente negociar um salário menor.
O Barcelona estava limitado pelas regras econômicas da LaLiga.
No relatório anual de 2021/22, o próprio clube reconheceu que a crise econômica e as limitações salariais dificultavam a renovação do elenco e haviam obrigado o Barça a abrir mão de Messi diante da impossibilidade de assumir sua renovação.
Assim, depois de mais de duas décadas ligado ao clube, Messi saiu sem que o Barcelona recebesse uma taxa de transferência.
Foi uma demonstração pública da gravidade da situação.
8. A crise também afetou a montagem do elenco
Quando um clube está pressionado financeiramente, o problema não termina no balanço.
Ele chega ao campo.
O Barcelona passou a ter menos liberdade para contratar e registrar jogadores.
Ao mesmo tempo, precisava renovar um elenco que estava encerrando um ciclo histórico.
Isso aumentou a importância de jovens e jogadores formados pelo próprio clube.
Também tornou necessário encontrar soluções criativas no mercado.
Mesmo posições historicamente ocupadas por jogadores extraordinários precisaram atravessar diferentes fases de reconstrução. Um exemplo pode ser visto na história dos laterais direitos que marcaram diferentes gerações do Barcelona, do Dream Team à era Guardiola e aos anos posteriores.
A reconstrução esportiva e a recuperação financeira passaram a acontecer simultaneamente.
9. O que foram as famosas "alavancas financeiras" do Barcelona?
Em 2022, uma expressão espanhola começou a aparecer constantemente quando se falava do Barcelona:
palancas, ou "alavancas".
Na prática, o clube decidiu transformar parte de receitas futuras e participações em determinados ativos em dinheiro imediato.
Uma das principais operações envolveu direitos televisivos.
Em junho de 2022, o Barcelona fechou um acordo com a Sixth Street pelo qual o fundo investiu €207,5 milhões em troca de 10% dos direitos televisivos do clube referentes à LaLiga durante 25 anos. A operação gerou um ganho de capital de €267 milhões naquele exercício.
O Barcelona posteriormente ampliou a estratégia com outras operações.
A lógica era relativamente simples:
receber muito dinheiro agora em troca de abrir mão de uma parcela de determinadas receitas futuras.
10. As alavancas salvaram o Barcelona?
Elas forneceram liquidez e ajudaram o clube a reorganizar suas contas no curto prazo.
O exercício 2021/22 terminou com €1,017 bilhão em receitas, €856 milhões em despesas e lucro de €98 milhões, resultado que incluiu o impacto da primeira operação envolvendo os direitos televisivos.
Mas existe uma contrapartida evidente.
Quando um clube vende parte de uma receita futura, essa parcela deixa de entrar integralmente nos anos seguintes.
Por isso, as alavancas não podem ser entendidas simplesmente como dinheiro gratuito.
Elas foram uma forma de antecipar valor econômico para enfrentar necessidades imediatas e tentar manter competitividade esportiva durante a recuperação.
11. Por que o Barcelona continuou contratando jogadores?
Essa era uma das perguntas mais comuns naquele período.
Se o clube estava em crise, como conseguia contratar?
Porque dívida, caixa, lucro contábil e limite salarial não são exatamente a mesma coisa.
Um clube pode ter uma dívida elevada e ainda assim realizar uma contratação.
Também pode vender ativos, gerar receitas extraordinárias, parcelar transferências e reduzir outros custos.
Além disso, uma transferência não necessariamente aparece integralmente como custo esportivo de uma única temporada na contabilidade. O valor do registro de um jogador normalmente é amortizado ao longo de seu contrato.
Portanto, a imagem de "Barcelona sem dinheiro, mas comprando jogadores" parecia contraditória, porém envolvia diferentes conceitos financeiros.
12. E o Camp Nou?
Existe outro elemento gigantesco nessa história.
O Barcelona precisava modernizar seu estádio.
O projeto Espai Barça envolve a remodelação do Camp Nou e outras estruturas do complexo esportivo.
Em 2023, o clube anunciou uma estrutura de financiamento de €1,45 bilhão, negociada com 20 investidores. Segundo o Barça, os ativos do clube não foram utilizados como garantia e o estádio não foi hipotecado; a previsão era que o pagamento fosse sustentado pelas receitas adicionais geradas pelo novo complexo.
O projeto previa diferentes vencimentos e período de carência durante as obras.
A expectativa divulgada pelo clube é que o novo estádio aumente substancialmente receitas de hospitalidade, ingressos, alimentação, museu, eventos e patrocínios.
É importante, portanto, separar duas coisas:
a antiga crise operacional do Barcelona e o financiamento específico do Espai Barça.
São relacionados dentro da situação financeira geral do clube, mas não são simplesmente a mesma dívida.
13. Jogar em Montjuïc também teve impacto financeiro
Durante a reforma do Camp Nou, o Barcelona precisou disputar temporadas no Estadi Olímpic Lluís Companys, em Montjuïc.
Isso reduziu temporariamente a capacidade de geração de receita ligada ao estádio.
Em setembro de 2026, o próprio clube informou que as duas temporadas em Montjuïc produziram aproximadamente €17 milhões em despesas operacionais e €24 milhões em investimentos relacionados à mudança, enquanto atrasos nas obras também postergaram receitas esperadas do novo Camp Nou.
Ou seja, justamente durante um processo de recuperação econômica, o Barcelona precisou administrar também uma das maiores reformas de estádio do futebol mundial.
14. O Barcelona ainda tem dívida?
Sim.
Recuperação financeira não significa ausência de dívida.
O Espai Barça, por exemplo, continua sendo uma grande operação de financiamento. A estrutura chegou a um volume total informado de aproximadamente €1,478 bilhão, com expectativa de refinanciamento de diferentes parcelas ao longo dos próximos anos.
Em setembro de 2026, o Barcelona também anunciou uma nova operação de €510 milhões ligada à conclusão do Camp Nou, dentro da estrutura financeira do projeto. O clube afirmou ainda ter refinanciado mais de €500 milhões nos anos anteriores para reorganizar o perfil dos vencimentos.
Portanto, dizer simplesmente que "o Barcelona pagou sua dívida" seria incorreto.
A situação atual é muito mais uma história de reestruturação e administração da dívida.
15. Então o Barcelona ainda corre risco de quebrar?
É mais preciso dizer que a situação mudou em relação ao ponto crítico de 2021.
Naquele momento, o clube apresentava prejuízo de €481 milhões, patrimônio líquido negativo, dívida elevada e severas restrições esportivas e salariais.
Desde então, houve redução de custos, operações financeiras, crescimento de receitas e reorganização de obrigações.
Ao mesmo tempo, existem compromissos relevantes de longo prazo, principalmente ligados ao Espai Barça e às receitas futuras comprometidas em determinadas operações.
O próprio clube mantém publicados seus relatórios financeiros anuais, permitindo acompanhar essa evolução exercício após exercício.
16. Por que o novo Camp Nou é tão importante financeiramente?
Porque a estratégia do Barcelona não depende apenas de gastar menos.
O clube também precisa ganhar mais dinheiro.
O novo Camp Nou foi concebido justamente para ampliar receitas em áreas nas quais estádios modernos possuem enorme vantagem:
hospitalidade premium, camarotes, alimentação, eventos, patrocínios, museu, turismo e experiências comerciais.
O Barcelona estima que o Espai Barça possa produzir cerca de €247 milhões anuais em receitas adicionais quando estiver plenamente operacional.
Essa previsão é do próprio clube e, naturalmente, depende da execução do projeto e do desempenho comercial futuro.
Mas explica por que a reforma é considerada tão importante para sua estratégia econômica.
17. Uma crise financeira em meio a uma história gigantesca
Talvez seja justamente o contraste que tenha tornado a crise tão surpreendente.
O Barcelona não era um clube pequeno tentando alcançar a elite.
Era uma instituição que havia acabado de atravessar algumas das maiores eras esportivas de sua história.
Ronaldinho.
Xavi.
Iniesta.
Puyol.
Messi.
Neymar.
Luis Suárez.
Busquets.
Dani Alves.
A sequência de craques, títulos e equipes históricas transformou o Barça em uma das marcas mais conhecidas do esporte.
Quem quiser explorar essa trajetória para além das finanças encontra no nosso espaço dedicado à história, jogadores e grandes momentos do Barcelona os diferentes capítulos que construíram essa dimensão mundial.
Afinal, por que o Barcelona quase quebrou?
Não existe uma única causa.
O Barcelona chegou à crise porque uma estrutura de gastos extremamente elevada encontrou uma queda brutal de receitas.
Anos de salários e transferências caras deixaram pouco espaço para absorver um choque.
A pandemia acelerou o problema.
As receitas despencaram.
As obrigações permaneceram.
A dívida e os compromissos acumulados pressionaram o caixa.
As regras financeiras da LaLiga reduziram a liberdade esportiva.
E o clube precisou tomar medidas extraordinárias — incluindo antecipar receitas futuras — para reorganizar sua situação.
O episódio de Messi foi provavelmente a imagem mais forte daquela crise, mas o problema era muito maior do que o contrato de um único jogador.
A recuperação também não aconteceu de uma vez.
Ela envolveu redução de despesas, aumento de receitas, venda parcial de direitos futuros, refinanciamento de dívidas e uma aposta bilionária na modernização do Camp Nou.
Por isso, a história financeira recente do Barcelona serve como uma lembrança importante para o futebol moderno:
até um dos clubes mais ricos, populares e vitoriosos do planeta pode enfrentar sérios problemas quando seus gastos crescem mais rápido do que sua capacidade sustentável de financiá-los.